face de david- michelangelo

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A face seca cede à curiosidade que entorpece os sentidos, focando o vívido olhar ao longe até se perder nas brumas de seus pensamentos distantes

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Morte da Santa de Areia


( Li um texto que me inspirou a escrever esse, pensei numa vida pacata, vida que se repete de pessoas em pessoas até o seu fim monumental. )

O tempo não corria em um lugar que ninguém se importa. Onde o sol sempre aparecia forte e entediado, onde o céu era no fim de tarde dourado.
Nenhuma beleza dispunha a casa tranquila rodeada por plantas simples que uma senhora cultivava. Era seu passatempo cuidar de suas rosas, trocar o seu pratinho de porcelana com água fresca para ver os passarinhos se banhando.
Sentava em sua cadeira que rangia, como se lhe falasse do passado a cada ruído amadeirado.
Sua xicara ja manchada pelo café, café esse que parecia ser parte sua... café amargo e cachimbo com fumo de corda.
Não conhecia bebidas refinadas, sempre tinha uma garrafa de conhaque, sua velha amiga.
Ela fazia tudo como num ato religioso, em seus momentos mais tristes bebia juntamente com chá para tentar fugir da mesmice. As datas não faziam mais importância ja que todos os dias eram iguais.
Seus atos eram tão rotineiros que ela nem lembrava mais do que fazia.
Seu mesmo terço... seu rosário pendurado no quadro de sua santinha que tanto admirava, ela era branca... admirava sua candura, parecia nunca ter visto o sol... diferente dela queimada por ele, pele caramelada.
Decidiu pegar seu véu... tirou seu rosário e passou um pouco de pó de arroz, tentou imitar a imagem que tanto admirara.
Sorria no Espelho... Brincava de ser santa. Um milagre decidiu criar... decidiu inovar. Muito não fazia, mas era preciso para fazer-la sorrir.
Fez queijadinha, lembrou de quando sua mãe fazia... sorria... a primeira fornada queimou, ela gargalhou... até chorou de felicidade, foi à praça...
Agora lembrou de seus namorados, lembrou quando paquerava, lembrou com olhos mareados, sentia falta do passado, mas também sentia orgulho... tudo tinha ido e ela sorria com fantasmas em seus olhos. Comprou algodão doce.
Assim que voltou para casa, acendeu suas velas, ja era noite. As janelas estavam abertas, soprou a brisa que moveu seu véu... Carinho fez em seu rosto marcado, suas mãos trêmulas foram de encontro com seu rosto que agora fez-se coberto. Fazia tempo em que não sentia algo do tipo.
Saiu para olhar o céu, como era lindo o luar, deitou vagarosamente sob o chão, começou a cantarolar músicas de época. Não se importou onde foi deitar, tentou contar as estrelas... eram mais que os grãos de areia no mar. Lembrou que morava perto ao mar...
Suas pernas trêmulas cambalearam e ela andou querendo chegar ao mar, o caminho parecia distante, mas não lhe impediu de chegar...
Soltou seus cabelos presos e eles voaram com a brisa salgada. Deitou na areia macia, ouvia o som das ondas... fechou os olhos.
Deixou o cachimbo aceso e o café a esfriar... Durmiu para nunca mais voltar.


David Weydson

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