face de david- michelangelo

face de david- michelangelo
A face seca cede à curiosidade que entorpece os sentidos, focando o vívido olhar ao longe até se perder nas brumas de seus pensamentos distantes

sábado, 26 de março de 2011

Pra não deixar de falar

Tudo que escrevo rasgo,
como cópia de escarro fica jogado no papel,
e no outono vejo o marco das folhas caídas,
sofridas pelos anos.

A noite chega cansada,
marcada pela rotina,
e sobre essa latrina de vida eu...
...eu simplesmente vivo.

Sem tino,
sem nada,
vago por essa estrada,
cravejada do brilho das constelações...
E riscada no chão pelas linhas,
que um dia algum artista perdeu o seu freio e a vida.

Marina...
O mar a se enrolar perante as rochas,
e tochas a se acender após o luar,
pesar... nem sei o motivo de certo,
e teto é o que não tenho mais.

Num cisco,
eu vivo a minha memória,
dorida,
lembrando de alguma ferida.
O circo...
do palhaço manco, bêbado e calvo...
O teatro que está em ruínas.


David Weydson


PS: Sem imagem porque as vezes pensamentos são pretos e vazios.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Velado


As vezes a palavra some e não tem nome o que se sente,
e chora por não saber como falar,
treme e geme querendo explicar...
Mas tem algo que entende.

Se nada disso valesse a pena,
por que a terra ainda suportaria,
e cada dia o sol ainda nasce?

Vontade tenho de ser mais capaz,
querer e fazer,
mas agora só posso esperar,
oro pra que os dias sejam menos crueis,
ou pelo menos que a crueldade não me atinja,
e finja que tudo é belo.
Olho pra o céu,
compro um caramelo,
e velo pelos meus sonhos,
pois eles tem dono,
mas ainda não tem tempo.


David Weydson

sexta-feira, 11 de março de 2011

Conselho dos Elementos


Aos que não tem mais planos,
só restam os danos de uma vida amargurada...
Esses podem ser os Fabianos,
Adrianos... não tem nome ao certo,
Gilbertos bebendo na estrada.

"Desalmada, me largou pra ficar com outro,
logo eu que tanto a amei,
eu que a ensinei tudo que sabe,
se não fosse essa vaidade sem medida,
se não fosse essa vadia reprimida,
só porque ele é mais novo do que eu.
Fui eu! EU!!! que a levei ao coliseu,
e é assim que ela me retribui..."

Pobres humanos...
tentam justificar suas vidas,
atos de outros e armadilhas,
dizem que a vida é bandida,
mas cruel mesmo são os seus atos.

Se ao menos olhassem ao céu,
tivessem fé e fizesse suas preces,
se ao menos cressem e prezassem ideais,
a vida seria diferente...

Mas preferem ao alcool,
à luxuria do que a Deus...
do que as estrelas...

O vento não tem mais importância...
e por meio dessa aliança,
cresce o caos urbano,
tempestades nos oceanos,
ventanias,
furacões fazem sinfonias...

Ouçam logo a verdade,
e façam da vida arte...

A arte de viver.


David Weydson

domingo, 6 de março de 2011

Caixinha de Botão


Ela era uma pobre senhora,
não tinha nada,
tricotava simplesmente com seu novelo simplório...
Fazia suas roupinhas,
e dava graças a Deus pela cura do Parkinson.

Ela tomava seu chá de maneira modesta,
economizava a erva para depois fazer mais,
gostava dele forte,
reutilizava a canela,
deixava-a num pote junto com o cravo.

Ela colecionava lágrimas,
colocava-as em outro pote,
pois cria que os anjos um dia iriam levar,
agradecia o cravo de cada dia,
para seu chá...
sua unica companhia...

Aquele chá fazia um bem,
a aquecia no frio,
fazia queimar a boca para lembrar que era viva,
lembrava que ainda existia por causa do chá.

...Quando terminada sua mais nova roupinha,
abriu seu baú precioso e tirou seus botões preferidos...
costurou com sua melhor linha...
Eles eram diferentes,
mas ela gostava assim,
dizia estar na moda.
Usou sua roupa recem terminada e dançou,
viajou em seus sonhos,
cantou...

Passado esse dia,
sua xicara de porcelana continuou no mesmo móvel,
sua chaleira nunca mais esquentou,
e depois que seu corpo esfriou,
vieram anjos e suas lágrimas levou.

E seus botões viraram ouro.


David Weydson

quarta-feira, 2 de março de 2011

Marcas da Vida


O tempo passa e o tempo brinca,
com a face marcada de tanta sina,
menina...
que corria pra pegar peteca,
antes sapeca agora é vellhinha...

Menino que antes brincava de barco,
agora em seu naufrágio de dores navega,
as costas,
coluna,
lombar...
Correr antes para brincar no ar,
brincar de pegar borboleta,
brincar de fubeca,
brincar de boneca e agora tem netos...

As histórias ficam nas marcas,
e as marcas deixam nos anos,
e no fim da vida sem planos,
o que há e o recomeço...
velhos ninam pequenos no berço,
passando a benção do tempo.


David Weydson