face de david- michelangelo

face de david- michelangelo
A face seca cede à curiosidade que entorpece os sentidos, focando o vívido olhar ao longe até se perder nas brumas de seus pensamentos distantes

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Antiquario


Minha alma é velha,
e tudo é muito cheio de pó...
não que me encomode...

Eu fico em silencio,
ouço o ranger da cadeira de balanço,
acaricio a poltrona,
e vejo fotos velhas...

Pensar envelhece...
uns falam que amadurece,
mas antes fosse o mel,
doce e nunca estragar,
agora sou só uma casca a embolorar,
mas até o bolor tem sua beleza,
leveza e delicadeza...

Cochilo sem medo e vou,
passando os anos e vendo a luz que entra pela janela,
deixando aquele faixo de luz centrado,
aquele cheiro amadeirado e pesado,
a janela embassada que me encanta a vista,
e minha roda grande encostada junto ao diário...
uniforme da marinha,
lenço e minha bengala,
meu monoculo,
e a cartola furada...

Era tudo tão vivo...
meu bandoneon patético,
meu gramofone e o disco riscado,
ouço passos...
mas sempre ouço...

Minha mente...
abusei tanto dela que agora ela me prega peças,
e sua alegria está na minha nostalgia sombria e deveras tardia,
ja não posso fazer nada e o café esfria...
Lembro quando não o bebia,
mas agora é só a lembrança da via láctea que vi.
E a lágrima que umideceu meu carvalho que canta nas frestas...

É só mais uma festa regada a champanhe 1917,
ano que penei pra comprar,
nunca reparti com ninguém,
nem nunca vou compartilhar...

Só eu e minha taça,
pois foi o tempo em que bebia da garrafa,
e que dela era escrava,
depois o charuto e o cachimbo...

Agora só resta o domingo...
todo dia é tão igual...

Minha alma ja é velha,
tudo é muito cheio de pó...
não que eu me encomode...

...

É tudo tão velho...

Não que eu me encomode,
mas...
o pó me faz tossir,
de maneira a sacodir os ossos velhos,
e encomodar a respiração de modo velho,
e não mais lembro do que ia falar...

Ahh...
O café...
amargo...


David Weydson

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