face de david- michelangelo

face de david- michelangelo
A face seca cede à curiosidade que entorpece os sentidos, focando o vívido olhar ao longe até se perder nas brumas de seus pensamentos distantes

domingo, 18 de agosto de 2013

Viagem


Agora vejo o tamanho da maldição que me foi lançada.
As palavras zumbindo aos ouvidos,
me deixando surdo de tanto pensar.

Tantas idéias,
tenho noção de tudo que me rodeia,
sei dos meus defeitos,
dos erros...
mas e agora?

Sei o que preciso melhorar,
mas não melhoro,
vivo manipulando,
mas não me satisfaço.
Sofro calado...
morro engasgado.

É muita dor guardada.
É muita coisa entalada.

Queria ser normal,
fútil e burro...
seria mais fácil.

Tudo aquilo que tenho busquei,
e o que não tenho preciso,
mas parece que necrosei,
e por tentar agir sozinho me espanto.
quebro um pouco aqui e acolá,
para ver se um pouco consigo saciar,
mas em vez de água brotam dúvidas,
dúvidas infindáveis.

Os meus espelhos estão esfumaçando,
e eu estou mais e mais amargando,
morrendo sozinho.

Já não me basto e o que consigo não me ajuda,
só me encaminho mais e mais aos problemas.
Não sei mais me definir.

E antes isso fosse o único problema.
O corpo é cansado,
mas a mente não o deixa repousar,
As palavras não se calam...
ficam a me torturar.

Sou mais vasto do que me imaginei e me perdi em mim,
mais e mais me retraí.
A fé me foi tirada,
a confiança me foi levada.
Nunca estive tão perto do Hades.

A inveja me veste,
a cobiça me atiça,
a luxúria me perfuma,
a gula me apruma,
a preguiça me contém,
a avareza me isola,
e a ira me corrói.

Nunca fui tanto...

Tão absorto em meus pensamentos,
são pensamentos com cheiro de suicídio,
mas esse é figurado,
pois o literal passou à tempos.

Preciso me ocupar!
Preciso me ocupar!!!

Calar minha mente que é viva,
fazer logo um abrigo,
antes que o casulo ecloda.

Estou entre santo e demoníaco.
As linhas estão bem finas.
Deus me ajude...
como vem a me ajudar.
Mas peço mesmo é força para lutar.

Os ossos rangem e são tão frágeis,
é tanto peso para eles aguentarem,
ouço-os trincar,
e a dor fina marca minha face.

É muito peso para pouco corpo,
sou um campo de batalha santo.
Deus e o cão.
Ou sim ou não.

Tanta confusão...

E essa fonte só emana mais e mais,
Dor...
A terra é seca e infértil.
Olho tantos a se deliciar com frutos sadios,
Moldo o pouco de barro que resta,
junto pedra e tento comer,
cuspo e engasgo até quase morrer.
Dói ver tudo seco.

É uma dor diferente,
ela é constante,
não arranca mais lágrimas,
nem nada.
Nasci sem possibilidade de frutificar.

Sou terra seca cheia de pedras preciosas,
mas na hora que a fome assola,
elas não servem de nada...

Tão jovem e tão destruído,
Lembro de Israel,
os profetas choravam,
eu os matava e estou em meio à ossos secos,
esperando insano seu levantar.
Com saudade do mar,
mas é só direcionamento de vontades,
sinto saudade de outra coisa,
de não saber...
confiar e não pensar.
De não invejar.

Invejo a ignorância,
a profunda burrice.
Gente medíocre que vive para ter filhos,
gente que vive pra nada.
Vive bem e na doce ignorância da felicidade.
Se achando livres,
chorando e crendo em qualquer coisa,
chegando no céu mais rápido que eu,
que nem forçando consigo ser simples...

Um entediado de músculos cansados que não tem mais reação,
se sim ou se não pouco importa...
Se espero ou se apresso...
Não tenho pressa.

Acho que no decorrer da vida estraguei,
quem sabe se pudesse repetir,
o conhecimento liberta,
mas faz a mente escrava de si.

Tão sistemático,
analítico...
o mundo não perdeu o seu brilho,
mas pela beleza já ser conhecida se torna acompanhamento,
não é mais audível...

O olhar cai e a mente grita,
mas o rosto permanece,
as máscaras manipulam,
e não sei se ainda sou eu...

Deus se faz presente,
mas ainda sim de seu jeito ausente,
mas ainda sim onipotente,
onipresente...
mas por ter livre arbítrio não faz.

Não questiono mais,
minha cota já deu,
basta de perguntas,
acumularam e elas não movem mais nada.
Não me levam a nenhuma estrada.

Está entardecendo,
esfriando.
A luz vai pouco-a-pouco minguando.

Fico parado,
olhos procurando ver,
mas não vejo.
Procuro sentir mas não sinto,
é um desconhecido que não havia,
mas agora me sorveu,
trevas...

Deus está fazendo sua parte,
sei que está!
Mas será o suficiente para me salvar?

Procurei preencher o vazio,
momentaneamente consegui,
não me valeu.

Ser tão egoísta é nojento,
sou vida de outros à mim investidas também,
Sofro calado para não magoar,
para não matar a vida que fiz nascer,
para não fazer sangrar o que já estanquei,
que tudo se concentre em mim,
pois creio que esse é meu calvário.

Agradeço pelos momentos de alívio e por ver olhares que me ajudaram,
Aos que carregaram minha cruz quando não mais conseguia prosseguir.
Fui crucificado por amor,
muita dor mas o fim valeu à pena.

Morri para que tivesse vida,
e vida em abundância.

Peço perdão pela ousadia,
mas quando disse isso a misericórdia me cobria,
e em meio a dor meus olhos abriam.
E o dia amanhecia.


David Weydson